Way Home

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Inaugura hoje na Fundação D. Luis I – Centro Cultural de Cascais Way Home de Paulo Martins, um projecto fotográfico que contou com o apoio da APAF, e que estará patente ao público até ao próximo dia 3 de março.

É fundamental que uma imagem consiga gerar sentimentos em quem a observa. Se são os mesmos que o autor pretendia transmitir ou sentia no momento da sua execução, é algo de discutível e motivo de desacordo por muitos anos no campo da arte. É a materialização dialética entre o mundo da criação e o desfrutar da imagem por cada um que a vê, tendo por extremos, por um lado, a vontade por parte do artista em transmitir algo, por oposição à liberdade criativa, desse mesmo artista,  levada ao extremo em ter a preocupação não de chegar ao público, mas sim de simplesmente se expressar. A verdade, comum a estas duas visões opostas, é a de que toda a imagem provoca sentimentos em quem vê. O fotografo é, assim, um manipulador de sentimentos, cujas decisões concretizam “realidades” diferentes dependentes do momento de decisão no registo, do que fica dentro ou fora do enquadramento, da composição escolhida, das opções técnicas, do que deixa iluminado ou na sombra ou da ambiência transmitida.

Em Way Home, sentimos. Não são imagens indiferentes, mas antes imagens fortes pelos negros profundos, que nos esmagam pela dimensão e, ao mesmo tempo, nos conduzem a um imaginário íntimo mas diário, ritualizado mas todos os dias diferente. A fotografia comporta uma presunção da realidade, que os tempos modernos da manipulação digital ainda não destruiu no nosso subconsciente. Daí o sentirmos os locais, as luzes ou as ambiências transmutadas em imagens com ligeiros arrastamentos, com contrastes profundos que nos empurram para o peso da melancolia noite, onde a falta de profundidade de campo nos confere a magia do domínio do sonho e onde um brilho inesperado nos faz recuar até ao reduto da nossa intimidade. São imagens onde nos situamos como espectadores e atores de uma encenação, porque nos permitem ver-nos como nunca nos vemos quando regressamos a casa. É verdade que uma fotografia é sempre uma opção redutora de uma dada realidade. A virtude de uma imagem consiste em fazer-nos viver essa realidade, como se cada uma delas prolongasse um dado momento para a folha de papel fotográfico. Se refletirmos nesses momentos são também imagens geradoras de tensão, pela pseudopresença induzida, mas que sabemos falsa, porque o momento em si, porque o observamos á posteriori, já passou e estamos a olhar para ele a partir do presente. É essa a grande virtude destas imagens, onde a escala cromática e as opções técnicas e estéticas no momento da excução se tornam as principais razões desses sentimentos.

Numa análise mais ligeira poderíamos pensar que Way Home é um trabalho feito de emoções. É, mas não é só. Contraditoriamente é também um trabalho feito de pesquisa, de reflexão e de erro e retificação. Começou com o conceito, desenvolvendo-se pela procura e pelo registo, pelo trabalho laboratorial e pela observação e discussão do trabalho produzido. Depois, retificando situações, ângulos, contextos. Repetindo uma e outra vez, até que se sentisse o espaço e o momento. (Re)vivendo cada um desses espaços e momentos, na altura em que se espalhavam as provas sobre uma mesa ou se estendia a imagem na parede, tal como se fosse a primeira vez que presenciávamos aquele enquadramento, no local, com pessoas reais, reconhecendo-nos e sentindo-nos no espaço escolhido pelo fotógrafo. António Lopes

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